E QUANDO OS PAIS TÊM DE ENTERRAR SEUS FILHOS?


Há um ditado comum, repetido especialmente em momentos de luto, de que “os pais não deveriam enterrar seus filhos”. Contrária à lógica da idade, a verdade é que, dado ninguém saber a hora de sua morte, não existe uma ordem convencional para que as coisas aconteçam. Filhos costumam enterrar os pais, é verdade, mas o contrário também procede, e as numerosas famílias de alguns anos atrás conheciam bem esses casos fortuitos. Em meio aos muitos filhos que tinham, era bastante recorrente que um ou dois viessem a falecer no meio do caminho, às vezes por alguma doença precoce, outras vezes por alguma fatalidade, dessas inerentes à condição humana.


O fato é que os filhos também morrem e, quando eles se vão, o que resta são a dor e o sofrimento aos pais, desolados por terem de sepultar aqueles que viram nascer e entrar no mundo.

Para você que lê este texto, esse fato talvez seja ou uma experiência de vida ou um medo presente, talvez seja o luto de algum amigo ou familiar, ou apenas a cena triste de algum filme ou tragédia da televisão. Independentemente do que seja, é importante que aprendamos a viver esses momentos com coragem — e é o que nos ensinam os santos e santas de Deus, quando também eles perdem os seus entes queridos.

O exemplo que trazemos neste texto é, novamente, o do casal São Luís e Santa Zélia Martin, que, antes de dar ao mundo Santa Teresinha do Menino Jesus, perderam não um nem dois, mas quatro filhos.

Quando o primeiro menino do casal nasceu, em 20 de setembro de 1866, Luís e Zélia já tinham quatro filhas: Maria, Paulina, Leônia e Helena. “Todas as noites”, a pedido da mãe, “as mãos das pequenitas juntavam-se para pedir a São José um irmãozinho que oferecesse a Hóstia Santa e fosse para terras distantes evangelizar os pagãos[1].

Pedido aceito e concedido, o menino ganhou o nome do pai de Jesus e foi chamado de José Maria Luís. Cerca de um mês depois, a mãe escrevia a seu irmão Isidoro, não cabendo em si de felicidade: “Nunca nenhum dos meus filhos, a não ser a Maria, nasceu tão bem. Se soubesses como gosto do meu Josezinho! Saiu-me a sorte grande, segundo creio!” [2]

Ao marido, ela revelava, com vaidade maternal: “Olha que mãozinhas tão bem feitas! Como há-de ser lindo quando subir ao altar ou ao púlpito!” [3]

A alegria da família, no entanto, não duraria muito tempo. Em 14 de fevereiro de 1867, com pouco menos de 6 meses e “em circunstâncias que ficaram ocultas”, José seria o primeiro membro daquela virtuosa família no Céu. Para consolar a mãe, sua irmã visitandina enviava-lhe uma carta em que parafraseava o sofrimento do justo Jó:

“Como hei-de eu consolar-te, minha querida irmãzinha? Eu também tenho necessidade de consolação; toda eu tremo, e contudo sinto-me resignada com a vontade de Deus. Ele no-lo deu. Ele no-lo tirou; bendito seja o Seu santo nome!Esta manhã, na Sagrada Comunhão, pedi tanto a Nosso Senhor que não nos levasse aquele menino a quem, aliás, só queríamos criar para a Sua glória e para a conquista das almas! E pareceu-me ouvir interiormente esta resposta: que queria as primícias e que te daria mais tarde outro filho que havia de ser como nós desejamos.” [4]

A “profecia” daquela religiosa, que sofria junto com a família, não tardaria a cumprir-se e, em 19 de dezembro do mesmo ano, nove meses depois de fazerem mais uma novena em honra a São José, nascia José Maria João Batista, vindo de um parto doloroso. “É muito forte e muito vivo”, descrevia a mãe, “mas passei um mau bocado e a criança correu os maiores riscos. Sofri durante quatro horas dores tão violentas como nunca sentira. O pobrezinho estava quase asfixiado e o médico batizou-o antes de nascer[5].

Só por esse relato já se percebe a principal preocupação que tinham São Luís e Santa Zélia Martin com os seus filhos. A morte natural precoce de alguns era para eles muito dolorosa, sem dúvida, mas assegurar o Céu era a prioridade absoluta daquele casal de profunda fé católica.

A triste sina do segundo José também não demoraria a manifestar-se, e a mãe bem o pressentia. Três meses de bronquite agravados por uma crise intestinal fariam aquela santa mulher suplicar para que o calvário do filho cessasse logo. Seu pedido foi atendido, como consta nesse bilhete, escrito por ela a 24 de agosto de 1868: “O meu querido Josezinho morreu-me nos braços esta manhã às sete horas; estava eu só com ele. Passou uma noite de cruel sofrimento e eu pedia, com lágrimas, que Nosso Senhor o levasse. Foi um alívio quando o vi dar o último suspiro.”

Coroado com rosas brancas, deitado num caixãozinho, a mãe às vezes soluçava ao vê-lo: “Meu Deus! então há-de ir para debaixo da terra?! Mas, visto que assim o quereis, faça-se a Vossa vontade!

Do mosteiro da Visitação vinham mais palavras de alento: “A medida das tuas alegrias há-de ser a que serviu para te medir as aflições. Acredita nisto sem a mais ligeira dúvida: agora semeias nas lágrimas, mas hás-de recolher na abundância da alegria do Senhor![6]

*

O golpe mais duro ainda estava por vir, no entanto. Luís e Zélia teriam de dar adeus a Heleninha, “a preferida de todas”, que contava com apenas 5 anos de idade. A pequena faleceu de repente, a 22 de fevereiro de 1870, “após uma crise que só durou um dia e sem que o médico tivesse adivinhado a gravidade do mal[7]. É da pena da própria santa que recolhemos este relato comovente de depois da sua morte:

“Olhava para ela, tristemente. Nos olhos embaciados já não havia vida e eu pus-me a chorar. Ela, então, rodeou-me o pescoço com os dois bracinhos e consolou-me o melhor que pôde. Durante esse dia dizia constantemente: Minha pobre mãezinha que esteve a chorar!’ Passei a noite ao pé dela: noite muito má. De manhã perguntamos-lhe se queria tomar o caldo; disse que sim, mas que não o podia engolir. Contudo fez um grande esforço, dizendo-me: ‘Se eu o tomar gostas-me mais?

Tomou-o todo, mas em seguida sofreu horrivelmente e não sabia o que havia de ser dela. Olhava para uma garrafa de remédio que o médico tinha receitado e queria tomá-lo, dizendo que, quando tivesse bebido tudo ficaria curada. Depois, pelas dez menos um quarto, disse-me: ‘Sim, daqui a pouco vou ficar curada… sim, agora mesmo…’ Neste instante, enquanto eu a amparava, a cabecinha tombou-lhe para o meu ombro, os olhos fecharam-se-lhe e daí a cinco minutos já não existia…

Senti uma impressão que nunca mais poderei esquecer; não contava com este desenlace repentino e o meu marido também não. Quando chegou a casa e viu a filhinha morta, desatou a soluçar, exclamando: ‘Minha querida Helena! minha querida Helena!’ Depois oferecemo-la ambos a Nosso Senhor… Antes do enterro passei a noite junto da minha querida filhinha que estava ainda mais bela depois de morta do que em vida. Fui eu que a amortalhei e pus no caixão: julguei que morria, mas não queria que outras mãos lhe mexessem.” [8]

Ainda em carta à cunhada, um mês depois do acontecido, Santa Zélia revela toda a desolação de sua alma: “Garanto-te que não tenho nenhum apego à vida”, ela escreve. “Tive muita pena dos meus dois rapazinhos, mas a perda desta causou-me ainda maior desgosto. Agora é que eu começava a apreciá-la, tão meiga, tão desenvolvida para a idade! Não se passa um minuto em que não me lembre dela.” [9]

Da Visitação vinha, mais uma vez, uma carta de consolação: “O teu coração está como esmagado por uma prensa, mas pela tua conformidade com todas as vontades divinas, sai dele um bálsamo que consola o Coração de Deus[10].

Ainda mais uma filha o casal veria morrer, e no mesmo ano: Maria Melânia Teresa faleceu sem completar ao menos dois meses de vida. Tendo dificuldades em encontrar uma ama de leite para a menina, Zélia confiou a pequena “a uma mulher que morava na Rua da Barra, em Alençon, e que iludiu vergonhosamente a sua confiança, deixando definhar” a menina [11]. Em vão o casal tentou encontrar uma nova ama e, no dia 8 de outubro de 1870, expirou a infante, para novo luto da família.

Os sofrimentos terríveis por que passou a família Martin nesse período seriam recompensados em 1873, com o nascimento de Teresa, a filha que maior glória trouxe à família.

Até lá, no entanto, foi necessário que tomassem com coragem a dolorosa cruz da morte, por mais pesada que lhes parecesse.

O que consolava o coração daqueles pais e o que pode e deve atenuar o luto de todos aqueles que perdem seus filhos ainda pequenos, é a esperança do Céu. O padre Stéphane Joseph Piat, biógrafo dos pais de Santa Teresinha, ao relatar todos esses fatos da vida do casal, diz que eles, “que conservavam gravadas na retina as feições queridas dos desaparecidos, consagravam-se aos que lhe ficavam, unindo, em magnífica solidariedade, a família terrena e a família que vivia no mundo melhor, sendo esta que protegia a outra” [12]. Assim, à pergunta de muitas famílias que sofrem tentando entender por que Deus leva tão cedo os seus pequeninos, a vida dos Martin talvez ofereça uma resposta, senão satisfatória, ao menos alentadora: essas coisas acontecem para adiantar as moradas de algumas famílias no Céu e fazer intercessores por aqueles que ficam.

Essa intercessão, porém, que faz parte da “comunhão dos santos” que é a Igreja, nada tem a ver com evocação dos mortos. Ninguém confunda a piedade desses pais com alguma prática espírita ou superstição pagã, condenadas por Deus já no Antigo Testamento. A devoção que faz Santa Zélia escrever linhas tão puras não é espírita, mas católica: trata-se não de ilusões reencarnacionistas ou de sessões “analgésicas” com o além, mas da fé e da esperança cristãs na vida eterna, as únicas que podem aliviar e confortar verdadeiramente.

Depois de perder os quatro filhos, é à sua cunhada que Zélia Martin revela o segredo para enfrentar bem a chegada da morte:

“Quando fechava os olhos dos meus filhinhos e os metia no caixão, experimentava uma grande dor, mas sempre conformada. Nunca lamentava os trabalhos e preocupações que tinha sofrido por eles. Muitas pessoas diziam-me: ‘Mais valia não os ter tido’. Mas eu não podia suportar esta maneira de falar. Não pensava que os trabalhos e preocupações pudessem comparar-se com a felicidade eterna dos meus filhos. E depois, eu não os tinha perdido para sempre: a vida é curta e cheia de miséria e havemos de nos encontrar lá em cima.” [13]

Ao morrerem aqueles que amamos, saibamos, como souberam Santa Zélia e São Luís, que não perdemos as pessoas para sempre. “A vida é curta e cheia de miséria e havemos de nos encontrar lá em cima” — de uma vez por todas —, com a graça de Deus.

Referências
Stéphane Joseph Piat, História de uma Família. 3.ª ed. Braga: Apostolado da Imprensa, p. 71.
Carta da Senhora Martin ao irmão, de 18 de novembro de 1866. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 71.
Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 71.
Ibid., p. 72.
Carta da Senhora Martin ao irmão e à cunhada, de 21 de dezembro de 1867. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 73.
Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 74.
Ibid., p. 82.
Carta da Senhora Martin ao irmão e à cunhada, de 24 de fevereiro de 1870. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 83.
Carta da Senhora Martin à cunhada, de 27 de março de 1870. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 84.
Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 84.
Ibid., p. 89.
Ibid., p. 85.
Carta da Senhora Martin à cunhada, de 17 de outubro de 1871. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 91.

via Equipe Christo Nihil Praeponere
E QUANDO OS PAIS TÊM DE ENTERRAR SEUS FILHOS? E QUANDO OS PAIS TÊM DE ENTERRAR SEUS FILHOS? Reviewed by Eu & Deus on dezembro 21, 2016 Rating: 5